22 Janeiro 2011

 

 BANDA SONORA PARA

UM REGRESSO A CASA

Porto Editora, 2011

 

“As crónicas sobre embirrações lêem-se com gosto, mas são as elegias açorianas autobiográficas que estão mais perto da literatura, bem como as explorações de temas como o protestantismo, em que o autor foi criado, e o golfe, de que é ávido praticante. (…) Basta a evocação de um clube de infância, o Lusitânia, ou a defesa da tourada à corda ou a memória de mau tempo no canal para que as crónicas se tornem idiossincráticas e mesmo memoráveis.”

PEDRO MEXIA, Expresso

 

“É um prazer ler ou reler as tiradas politicamente incorrectas de Joel Neto contra as 'vacas sagradas' dos meios sociais, culturais e desportivos do continente. Sim, porque, no que toca às ilhas atlânticas, o coração do autor açoriano derrete-se num 'regresso a casa'. A não perder.”

JOÃO CÉU E SILVA, NS'

 

“Habituados que estamos ao tom ardiloso e politicamente correcto de muitos cronistas encartados, peritos na difícil arte de ocultar o que lhes vai na alma, estranhamos sempre, enquanto leitores, quando surge uma voz que, em vez de promover consensos, retira evidente deleite no contrário. Ou seja, na promoção de querelas e discussões que têm o condão de sacudir da letargia mesmo o mais sisudo dos seres.”

SÉRGIO ALMEIDA, Jornal de Notícias

 

“Há na sua prosa qualquer coisa que lembra Raymond Carver, que sabemos ter influenciado outros desta mesma geração portuguesa: a brevidade da frase claríssima na sua simplicidade vocabular, a estranheza de ser e estar no seu próprio meio e tempo.”

VAMBERTO FREITAS, Açoriano Oriental

 

“[Joel Neto] É uma das poucas coisas que valem a pena na nossa imprensa escrita. (...) Não temos petróleo, mas temos tipos como o Joel.

PEDRO BOUCHERIE MENDES, na apresentação

 

Os vegetarianos e os nudistas. Os cães e os escritores vivos. Os telefones, o silicone e o socialismo. As raparigas demasiado magras. O Benfica. As mulheres infiéis. O cinema fantástico, os anos 80 e a bem-aventurança em geral. Joel Neto parece coleccionar inimigos ao mesmo ritmo a que vai escrevendo. E, no entanto, garante que tem coração – e que, no limite, até é capaz de comover-se. Neste volume se reúnem as obsessões e os ódios, os delírios e os afectos daquele que é, hoje, um dos principais cronistas portugueses. Um livro que se lê como quem ouve um disco. A caminho de casa.

 

“José Guilherme. Toda a minha vida foi, a certa altura, uma reprodução em miniatura da vida grande e inalcançável dele. À noite, quando se acabava o jantar e as mulheres queriam ver a Escrava Isaura, refugiávamo-nos na casa-de-despejo – e então ali ficávamos horas a brincar aos carpinteiros, ele com o seu serrote grande e eu com o meu serrote pequenino, ele com a sua plaina grande e eu com a minha plaina pequenina. De dia, íamos ordenhar as vacas, a Bem-Feita e a Estrela – e então lá subíamos os serrados os dois, ele com as suas botas-de-cano grandes e eu com as minhas botas-de-cano pequeninas, ele com a sua bilha de leite grande e eu com a minha bilha de leite pequenina, ele subindo a custo, apoiado no seu bordão grande de pau de roseira, e eu imitando-o atrás, quase rindo, com o meu bordão de fona-de-porca girando no ar e despedaçando às escondidas as rocas-de-velha e as suas flores amarelas que davam um suco adocicado e a que chamávamos ‘chupes’. Até que, enfim, ele se sentava numa pedra e puxava da sua boceta grande – e então eu sentava-me ao lado dele e puxava da minha boceta pequenina. (…) Chamávamos-lhe ‘boceta’ – e é assim que eu continuarei a chamar-lhe, independentemente de também a mim as telenovelas brasileiras e as viagens aos trópicos me terem, entretanto, pulverizado a inocência.  Persistiu até há uns anos no falar do povo destas ilhas uma pureza e uma precisão que não cheguei a encontrar em Lisboa – e ‘boceta’, garantem os dicionários, continua a ser a melhor palavra para definir o objecto. (…) Preciso dela. O corrector do meu MacBook não reconhece a palavra, assim como não reconhece ‘lenço-da-mão’, ‘botas-de-cano’ ou sequer ‘garoupa’ – e só regressar a esta casa, à procura de histórias e de palavras que já não existem, me impede de ceder de vez à sua pressão para que escreva como os outros todos.”

ELE, Prelude

 

“Um casamento pode sobreviver a um homem infiel e pode sobreviver a uma mulher infiel também. Coisa diferente, porém, é o amor. Um homem pode ser infiel à sua mulher e, no entanto, amá-la eterna e incondicionalmente. Uma mulher infiel já não ama o seu marido.”

 

“Para que serve um cão? Para que serve um bicho fundamentalmente estúpido, tantas vezes agressivo, que cheira mal, que ladra alto, que nos rouba duas horas por dia só por causa do cocó – e que, além de tudo, volta e meia está obstipado, fazendo-nos andar, não duas, mas quatro horas a subir e a descer a rua com um saquinho de plástico na mão?”

 

“Já não gosto de futebol. Deste futebol. O meu futebol é o futebol dos golos de bandeira e dos penáltis roubados, dos copos pela noite dentro e das zaragatas à segunda-feira de manhã. No meu futebol, vive-se a mais delirante euforia e a mais miserável angústia. Vivem-se o ódio e o amor em doses iguais – e, quando alguém nos pergunta se é loucura o que isso é, nós erguemos bem alto o copo, citamos Goethe (não citamos nada) e bebemos a Bruno Paixão.”

 

“Sobretudo, não me venha agora perguntar se eu sou efectivamente homofóbico, machista, xenófobo, inimigo dos animais ou mesmo apenas um conservadorão sombrio. Pergunte ao Joel Neto, que pensa mais nessas coisas do que eu. Dizia Alexandre Dumas que a intriga era o prego onde pendurava os seus quadros – e quanto a mim, Joel Neto, se alguma coisa me absolve é a vã-glória de pensar que o menos importante nestas crónicas é aquilo de que elas falam.”

publicado por JN às 15:16

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003) e “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado... (saber mais)
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